Clara Corrêa

O Peso do Invisível: Ambivalência e a Saúde Mental da Mulher Contemporânea


Publicado em 15/01/2026, por Clara Corrêa.

É muito comum receber mulheres no consultório que carregam um sentimento profundo de
exaustão, acompanhado por uma culpa massacrante. Elas sentem que deveriam ser gratas e
plenas em suas funções, mas, no fundo, guardam um desejo honesto: o de que a vida não
fosse tão pesada.


A mulher contemporânea vive mergulhada em múltiplas jornadas. Além do trabalho externo,
recai sobre ela a "gestão da vida": limpar, alimentar e cuidar não só dos filhos, mas também de
pais, avós e outros familiares. Esse papel de "cuidadora universal" gera o que chamamos na
psicanálise de ambivalência, é o fato de podermos amar profundamente as pessoas da nossa
vida e, ao mesmo tempo, sentirmos raiva ou rejeição pelo fardo que esse cuidado nos impõe.


Sobre essa tensão, a psicanalista Elisabeth Badinter (1985, p. 341) reflete:
"A ambivalência é a essência do amor humano. [...] No caso da mulher, a pressão
para que ela seja apenas doação e ternura ignora o conflito entre seus próprios
desejos de mulher e as exigências do papel de cuidadora."


Na prática clínica, essa ambivalência se manifesta por um sofrimento agudo: a mulher chega
com queixas de fadiga extrema ou irritabilidade, mas demora a admitir que o motivo é o
excesso de responsabilidades. Há um medo constante de que, ao expressar o cansaço ou o
descontentamento com a rotina doméstica e familiar, ela seja lida como "má" ou "ingrata". A
clínica revela que o adoecimento surge justamente quando a mulher tenta silenciar sua
ambivalência, tentando manter uma fachada de perfeição que anula suas próprias
necessidades.


Para nos ajudar a entender isso sem culpa, o psicanalista Donald Winnicott trouxe um conceito
libertador: o da "mãe suficientemente boa". Ele nos ensina que:
"A mãe suficientemente boa é aquela que efetua uma adaptação viva às
necessidades do bebê, uma adaptação que diminui gradativamente, à medida que
o bebê manifesta capacidade de tolerar os resultados da frustração." (WINNICOTT,
2000, p. 33).


Em termos simples, ambos os autores nos mostram que não precisamos (e nem devemos) ser
perfeitas ou onipotentes. Sentir-se sobrecarregada não é falta de amor; é um sinal de que você
chegou ao seu limite. Reconhecer que você não precisa dar conta de tudo sozinha é o primeiro
passo para resgatar a sua própria identidade, para além do papel de cuidadora.
Mas como a terapia pode ajudar nesse processo?


O espaço analítico oferece algo que a sociedade raramente permite: um lugar de
não-julgamento. Através da fala, a mulher pode desconstruir o ideal de "mulher perfeita"
herdado de gerações passadas e começar a separar o que é seu desejo real das expectativas
alheias.


A análise não busca criar uma mulher que suporte mais carga, mas sim uma mulher que se
sinta autorizada a não aceitar o que não é seu. É um processo de resgate da própria
subjetividade, onde o foco muda do "o que preciso fazer pelos outros?" para "quem sou eu para
além do cuidado?". Reconhecer a ambivalência e os próprios limites é o primeiro passo para
que, no lugar da cuidadora exausta, possa emergir um sujeito livre para desejar e, acima de
tudo, para descansar.