Brasil e Mundo
Adultização: do alerta nas redes à prisão que expôs um problema sistêmico no Brasil
Escandalo nacional desencadeou na prisão do influencer Hytalo Santos
Publicado em 15/08/2025, por Ramon Santos.
O Brasil amanheceu nesta sexta-feira (15) com a notícia da prisão do influenciador digital Hytalo Santos, suspeito de armazenar e compartilhar imagens de abuso sexual infantil. A detenção, realizada pela Polícia Civil, é um desdobramento direto da onda de denúncias e debates provocada pelo vídeo do youtuber Felca, publicado no início da semana. Com quase uma hora de duração, o material expôs uma rede de conteúdos e práticas que, segundo o criador, incentivam a chamada “adultização” de crianças e adolescentes, um fenômeno que ganhou centralidade no debate público nos últimos dias e acendeu alertas de especialistas, autoridades e famílias.
O termo “adultização” se refere ao processo de expor crianças a comportamentos, estéticas e conteúdos típicos do mundo adulto, muitas vezes de caráter sexualizado, antes do tempo. Essa antecipação forçada da maturidade, frequentemente alimentada por algoritmos e pela busca incessante por engajamento nas redes sociais, não apenas rouba a infância, mas também aumenta a vulnerabilidade de crianças a abusos, assédio e exploração. Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023 mostram que 88% dos usuários de 9 a 17 anos têm perfil ativo em redes sociais, índice que chega a 99% entre adolescentes de 15 a 17 anos. Ainda mais alarmante: quase um quarto das crianças brasileiras começa a usar a internet antes dos seis anos.
O impacto do vídeo de Felca foi imediato. A SaferNet, organização que opera um canal nacional de denúncias de crimes na internet, registrou um aumento de 114% nos relatos de pornografia infantil nos dias que se seguiram à publicação. O Disque 100, canal oficial da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, também registrou alta expressiva, com mais de mil denúncias em poucos dias. Em Minas Gerais, onde Hytalo foi preso, a Polícia Civil já vinha alertando para o crescimento de crimes de exploração sexual infantojuvenil online. O Ministério Público Estadual, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Cibernético (GAECIBER), reforça que a maior parte desses crimes se inicia em plataformas populares entre adolescentes, como Instagram, TikTok e WhatsApp.
Os esforços do Brasil na proteção de jovens e adolescentes
Do ponto de vista legal, o Brasil dispõe de um arcabouço robusto para proteger crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura, nos artigos 17 e 18, o direito à dignidade, à imagem e ao respeito, e criminaliza, nos artigos 241-A e 241-B, a produção, posse e compartilhamento de material pornográfico envolvendo menores, com penas que podem chegar a oito anos de prisão. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em seu artigo 14, estabelece que o tratamento de dados pessoais de crianças deve ser realizado sempre no melhor interesse delas e com consentimento específico de pelo menos um dos pais ou responsáveis. Já o Marco Civil da Internet reforça a responsabilidade das plataformas na remoção de conteúdo ilegal mediante ordem judicial e na preservação de registros para investigações.
Nos últimos anos, o Congresso Nacional também aprovou medidas mais duras. A Lei 14.811/2024 aumentou as penas para crimes sexuais contra menores e tipificou o cyberbullying, respondendo à realidade de uma infância cada vez mais conectada. Apesar disso, especialistas destacam que a aplicação dessas leis ainda depende de uma vigilância constante e de denúncias rápidas para evitar que conteúdos permaneçam ativos na rede por longos períodos.
O cuidado começa dentro de casa
Para as famílias, a recomendação é clara: reduzir a exposição pública de crianças, especialmente em ambientes digitais. Isso inclui manter perfis privados, desativar geolocalização em postagens, evitar divulgar imagens com uniformes ou informações que permitam identificar locais frequentados e sempre supervisionar interações online. Escolas e órgãos públicos também devem adotar protocolos rígidos no uso de imagens de alunos, solicitando autorização formal dos responsáveis e limitando o alcance das publicações.
O caso Felca-Hytalo, mais do que um episódio isolado, evidência a dimensão sistêmica do problema. A adultização não nasce apenas da má conduta de indivíduos, mas de uma cultura digital que transforma vulnerabilidade em entretenimento e lucro. Enquanto isso, criminosos exploram brechas tecnológicas e emocionais para se aproximar de suas vítimas. O país possui leis e canais de denúncia, como a SaferNet, o Disque 100, a Polícia Federal e as delegacias virtuais estaduais, mas a eficácia deles depende de que famílias, escolas, marcas e plataformas ajam preventivamente.
A proteção da infância não pode ser um esforço esporádico, motivado apenas por comoção momentânea. Ela precisa ser uma política diária, tão constante quanto a presença das crianças no mundo digital. O alerta foi dado!


