Minas Gerais

Tragédia Anunciada! Chuvas devastam Minas e expõem negligências na prevenção!


Publicado em 02/03/2026, por Ramon Santos.

A lama ainda cobre ruas, móveis e memórias na Zona da Mata mineira. Em Juiz de Fora e Ubá, cidades marcadas por dias seguidos de chuva extrema, o número de mortos ultrapassou seis dezenas, enquanto milhares de pessoas enfrentam o desalojamento, a perda de bens e a incerteza sobre o futuro. Diante do cenário devastador, duas frentes se impõem: o socorro imediato às vítimas e a cobrança por respostas sobre o que poderia ter sido feito antes da tragédia.

No centro desse debate está o governo de Minas Gerais, que reduziu drasticamente os valores destinados a ações de prevenção e resposta aos impactos das chuvas. Dados disponíveis no Portal da Transparência estadual indicam que os investimentos nessa área caíram de cerca de R$ 134,8 milhões em 2023 para R$ 41,1 milhões em 2024 e apenas R$ 5,8 milhões em 2025, uma redução superior a 90% em dois anos. Em 2026, até o início do período chuvoso mais crítico, os valores empenhados eram praticamente simbólicos.

Esses recursos englobam ações como contenção de encostas, drenagem urbana, reforço de estruturas em áreas de risco e preparação das defesas civis. Especialistas apontam que tais medidas não impedem a ocorrência de chuvas intensas, mas reduzem significativamente o potencial destrutivo dos eventos climáticos. Quando essas intervenções não são executadas, o impacto deixa de ser apenas natural e passa a refletir escolhas administrativas.

O governo estadual contesta a leitura de que houve negligência. E afirma ter destinado mais de R$ 170 milhões desde 2022 para prevenção e resposta a desastres, incluindo a compra de equipamentos para defesas civis municipais, construção de bacias de contenção e investimentos estruturais em regiões metropolitanas. Também sustenta que os gastos não se concentram em uma única rubrica orçamentária e que a análise isolada de determinados programas pode levar a conclusões incompletas.

Ainda assim, o contraste entre os números e a magnitude da tragédia reacendeu críticas de especialistas e autoridades federais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, antes de viajar a Minas Gerais, que havia recursos federais disponíveis para obras de prevenção, mas que projetos estaduais não teriam sido apresentados em volume suficiente. Segundo o governo federal, cerca de R$ 3,5 bilhões poderiam ter sido acessados por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para intervenções de drenagem e contenção.

A presença presidencial e a promessa de reconstrução

No último sábado, Lula sobrevoou as áreas atingidas e percorreu bairros destruídos, encontrando-se com prefeitos e equipes de resgate. Em Ubá, diante de ruas ainda cobertas de entulho, o presidente reconheceu a dimensão irreparável da tragédia humana, mas garantiu que as perdas materiais serão reconstruídas com apoio federal.

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional já autorizou o repasse inicial de mais de R$ 11 milhões para ações emergenciais, incluindo assistência humanitária, restabelecimento de serviços essenciais e recuperação de infraestrutura. Além disso, o governo federal anunciou medidas como antecipação de benefícios sociais, liberação do FGTS para famílias atingidas e envio de equipes da Defesa Civil Nacional e do Sistema Único de Assistência Social.

A estratégia federal, segundo ministros presentes na região, envolve duas etapas: o socorro imediato , com resgate, alimentação e abrigo , e a reconstrução, que dependerá de projetos técnicos apresentados pelos municípios e estados.

Entre a emergência e a prevenção

O episódio expõe um problema estrutural que se repete ano após ano no Brasil: a distância entre o investimento em resposta emergencial e o investimento em prevenção. O país convive com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, resultado da combinação entre mudanças climáticas, urbanização desordenada e falta de infraestrutura resiliente.

Em Minas Gerais, onde relevo acidentado e ocupações em encostas ampliam os riscos, a prevenção exige planejamento contínuo e recursos permanentes. Sem isso, cada nova temporada de chuvas tende a reproduzir o mesmo roteiro: alertas ignorados, tragédias humanas e reconstruções que chegam depois que a água baixa.

O governo estadual anunciou recentemente novos repasses emergenciais às cidades atingidas e o envio de equipes técnicas para mapear áreas de risco. As medidas são necessárias, mas levantam uma questão inevitável: por que os investimentos mais robustos só ganham força após a tragédia consumada?

Enquanto máquinas retiram lama e famílias tentam recomeçar, permanece uma verdade incômoda: chuvas extremas são fenômenos naturais, mas o tamanho de suas consequências é, em grande medida, uma escolha política. O desafio agora é garantir que a reconstrução não sirva apenas para restaurar o que foi perdido, mas para evitar que a próxima tempestade repita o mesmo desfecho.

Investigações sobre os cortes 

Na semana passada, 25 de março, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) encaminhou um ofício ao procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, solicitando a abertura de um Procedimento de Investigação Criminal (PIC) para apurar eventual responsabilidade penal do governador Romeu Zema diante da tragédia que atingiu municípios como Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa. A representação se baseia em dados do Portal da Transparência do Estado que indicam uma queda significativa nos investimentos voltados à prevenção e mitigação de desastres climáticos, de cerca de R$ 135 milhões em 2023 para menos de R$ 6 milhões em 2025, redução aproximada de 96%. No mesmo sentido, a vereadora Iza Lourença e a deputada estadual Bella Gonçalves também acionaram o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), questionando os cortes no orçamento destinado à prevenção de impactos das chuvas. Em manifestações públicas, as parlamentares argumentam que, enquanto os recursos para prevenção diminuem drasticamente, o governo estadual mantém políticas de isenção fiscal para grandes empresas, o que, segundo elas, revela um contraste nas prioridades orçamentárias do Executivo mineiro.

 

Firme na dieta!

E, em meio ao debate sobre responsabilidades e prioridades, um episódio recente volta à memória. Em 2025, ao comentar o aumento do preço dos alimentos, o governador Romeu Zema sugeriu, após dizer ter consultado um nutricionista, que a população poderia consumir cascas de alimentos como forma de economizar, uma resposta indireta à fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia recomendado evitar a compra de itens muito caros para conter a pressão inflacionária.

A cena, que à época gerou repercussão nacional, hoje ganha contornos simbólicos diante da tragédia na Zona da Mata. Afinal, se na mesa a orientação foi aproveitar até a casca para economizar, na gestão pública a lógica parece ter seguido caminho semelhante: cortar justamente onde a prevenção deveria ser prioridade. Porque chuvas intensas são fenômenos da natureza, mas o tamanho das perdas humanas e sociais raramente é obra do acaso. Ele também reflete escolhas, planejamento e responsabilidades que não podem ser ignoradas quando a água baixa e a lama revela o que ficou para trás.